People who likes this stuff, dont know why

quarta-feira, 6 de julho de 2011

The perfect Sober

Imagino-me.
Imagino-me no palco, luzes a arder na pele, cada som que o publico faz, eu ouço.
Cada pinga de suor a percorrer me a testa, como se ardesse.
Afinação dos instrumentos, cinco minutos para me concentrar.
Olho para o publico, não muita gente, só a necessária.
Pessoas a falar, até podia adivinhar qual era o assunto de conversa, como se o mundo todo me observasse naquele momento.

Técnicos de som, de vídeo, ajudantes, inexperientes a auxiliarem os técnicos, a pôr os cabos todos fora do alcance deles, tentar fazer tudo sem um erro.
Ri-me.
Percebi a diferença entre mim e o rapaz que estava a tentar fazer o seu trabalho profissionalmente, sem errar, e percebi que não havia.
Nunca tive tanto medo, confesso, nem aquele rapaz, aposto.
Os cinco minutos já passaram à três minutos, distrai-me.
Primeiro erro.

"Não te deixes rebaixar, foi um erro mínimo, ninguém reparou"

Auto-estima voltou outra vez.

Ficou escuro de repente.
Ouve-se uma voz muito forte, vinda das colunas.
O apresentador a falar.
Não ouvi palavra.

Do nada, fico ofuscado com uma luz muito forte, tentei não me desconcentrar, olhando em frente, sempre em frente.
Puseram-me a frente de todos, e eu tinha que por a minha voz a minha frente.
Tinha que ser ela a guiar-me, não eu. Tinha que sentir o momento, tinha que saborear cada sentimento recebido das pessoas que atentamente se debruçavam para a frente para me ouvirem.

"Faz exactamente como nos ensaios, nada que saber."

Mas isto não era um ensaio.

Era altura de começar.
Faziam-me sinais para cantar, já estávamos atrasados.

Enchi o peito de ar, e de lá saiu uma musica melancólica, que eu adorava.
Nesse momento, flashbacks passaram-me pela mente.

Lembro-me de estar constantemente a encontrar me com o líder da banda, a mendigar-lhe para ser o vocalista da banda dele, explicava lhe que era o meu maior sonho e que não podia perder esta oportunidade.

Lembro-me dos primeiros ensaios, cantava fechado, não projectava a voz, não queria saber o que eles pensavam de mim. Os meus olhos encheram se de alegria quando me disseram que estava aceite.

Lembro-me do maior conselho que alguma vez me deram.
Dado por um homem, a quem eu chamo "Mestre".
Disse que eu tinha o poder de subir nesta vida, mas que tinha que agarra-la com força.
Disse que devia ter mais garra, mais força, que não acreditava nas minhas capacidades.

Nunca mais me esqueci.

"Wake up
And face me
Don´t play dead
Because maybe
Someday
I will walk away and say
You disappoint me
Maybe you´re better off this way"

Não me tinha esquecido da letra, estava a conseguir atingir as notas, estava a fazer um bom trabalho.

Mas estava impaciente.
Não conseguia esperar por aquela parte da música em que a melodia fica no seu auge, aquele momento de suster a respiração, e do nada, do meio da música ouve se uma nota aguda, cheia de tantos sentimentos que não consigo descreve-los todos.

Quem tem que soltar essa nota sou eu.

Conseguia perceber quanto é que faltava para esse momento, e não faltava muito.

Olhei para o público mais uma vez, parecia estar a sentir a musica que saía dos meus pulmões. Mas vi que faltava qualquer coisa para eles ficarem com as lágrimas nos olhos.

Finalmente dei a nota.

Quando dou por mim, está a plateia toda em silêncio com os olhos muito abertos a olhar para mim.

O susto da minha vida.

Não sabia se tinha saído bem ou mal.
Se o que se via nos olhos das pessoas era horror ou espanto.

Do nada, levantou se e tudo.
E naquele instante, se falasse, não conseguiria ouvir a minha própria voz com os aplausos.

Senti me amado.

Agradeci com um gesto muito simples de uma vénia.

E saí.

Tinhafeito um bom trabalho.

Um bom trabalho.

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