Imagino-me.
Imagino-me no palco, luzes a arder na pele, cada som que o publico faz, eu ouço.
Cada pinga de suor a percorrer me a testa, como se ardesse.
Afinação dos instrumentos, cinco minutos para me concentrar.
Olho para o publico, não muita gente, só a necessária.
Pessoas a falar, até podia adivinhar qual era o assunto de conversa, como se o mundo todo me observasse naquele momento.
Técnicos de som, de vídeo, ajudantes, inexperientes a auxiliarem os técnicos, a pôr os cabos todos fora do alcance deles, tentar fazer tudo sem um erro.
Ri-me.
Percebi a diferença entre mim e o rapaz que estava a tentar fazer o seu trabalho profissionalmente, sem errar, e percebi que não havia.
Nunca tive tanto medo, confesso, nem aquele rapaz, aposto.
Os cinco minutos já passaram à três minutos, distrai-me.
Primeiro erro.
"Não te deixes rebaixar, foi um erro mínimo, ninguém reparou"
Auto-estima voltou outra vez.
Ficou escuro de repente.
Ouve-se uma voz muito forte, vinda das colunas.
O apresentador a falar.
Não ouvi palavra.
Do nada, fico ofuscado com uma luz muito forte, tentei não me desconcentrar, olhando em frente, sempre em frente.
Puseram-me a frente de todos, e eu tinha que por a minha voz a minha frente.
Tinha que ser ela a guiar-me, não eu. Tinha que sentir o momento, tinha que saborear cada sentimento recebido das pessoas que atentamente se debruçavam para a frente para me ouvirem.
"Faz exactamente como nos ensaios, nada que saber."
Mas isto não era um ensaio.
Era altura de começar.
Faziam-me sinais para cantar, já estávamos atrasados.
Enchi o peito de ar, e de lá saiu uma musica melancólica, que eu adorava.
Nesse momento, flashbacks passaram-me pela mente.
Lembro-me de estar constantemente a encontrar me com o líder da banda, a mendigar-lhe para ser o vocalista da banda dele, explicava lhe que era o meu maior sonho e que não podia perder esta oportunidade.
Lembro-me dos primeiros ensaios, cantava fechado, não projectava a voz, não queria saber o que eles pensavam de mim. Os meus olhos encheram se de alegria quando me disseram que estava aceite.
Lembro-me do maior conselho que alguma vez me deram.
Dado por um homem, a quem eu chamo "Mestre".
Disse que eu tinha o poder de subir nesta vida, mas que tinha que agarra-la com força.
Disse que devia ter mais garra, mais força, que não acreditava nas minhas capacidades.
Nunca mais me esqueci.
"Wake up
And face me
Don´t play dead
Because maybe
Someday
I will walk away and say
You disappoint me
Maybe you´re better off this way"
Não me tinha esquecido da letra, estava a conseguir atingir as notas, estava a fazer um bom trabalho.
Mas estava impaciente.
Não conseguia esperar por aquela parte da música em que a melodia fica no seu auge, aquele momento de suster a respiração, e do nada, do meio da música ouve se uma nota aguda, cheia de tantos sentimentos que não consigo descreve-los todos.
Quem tem que soltar essa nota sou eu.
Conseguia perceber quanto é que faltava para esse momento, e não faltava muito.
Olhei para o público mais uma vez, parecia estar a sentir a musica que saía dos meus pulmões. Mas vi que faltava qualquer coisa para eles ficarem com as lágrimas nos olhos.
Finalmente dei a nota.
Quando dou por mim, está a plateia toda em silêncio com os olhos muito abertos a olhar para mim.
O susto da minha vida.
Não sabia se tinha saído bem ou mal.
Se o que se via nos olhos das pessoas era horror ou espanto.
Do nada, levantou se e tudo.
E naquele instante, se falasse, não conseguiria ouvir a minha própria voz com os aplausos.
Senti me amado.
Agradeci com um gesto muito simples de uma vénia.
E saí.
Tinhafeito um bom trabalho.
Um bom trabalho.
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