Um dia normal, estava no meu caminho habitual: rotina.
Via sempre as mesmas pessoas, as mesmas coisas, os mesmos edifícios. Tinha perdido a magia de pequeno, a felicidade que era deixarem-te ir sozinho para casa.
Era uma responsabilidade enorme naquela idade, eu senti me orgulhoso na primeira vez em que a minha avó não me foi deixar à escola, apenas vira-se para mim e diz "Acho que já és grande o suficiente para o fazeres sozinho" - são apenas lições de vida.
Estranhamente, neste dia simples, havia algo que me estava a perturbar.
Um som, quase como se um zunido dentro da minha cabeça. Já não conseguia evitar, queria saber o que era aquilo. Teria ficado doente?
Cheguei ao ponto onde nem dar cabeçadas na parede ajudava. Estava a lutar comigo próprio.
No meio destas cortinas problemáticas, estendi o braço para poder ver através dessa cortina.
Reparei numa silhueta, vinda lá do fundo, não tinha bem a certeza do que via.
Quanto mais se aproximava, mais eu reparava na beleza desse ser. Era uma rapariga, jovem, com os olhos pérola, cabelo castanho avelã, que mais se precisa para a perfeição?
Com um rasgão de olho, fixo me nos seus. Ela olhava me também. Avaliava-me com o olhar.
Escapou-lhe um sorriso, e com isto foi-se embora.
Eu queria pôr na cabeça que era um sonho, acreditem que queria. Mas não dava para evitar e saber a verdade. Queria saber o quão improvável seria a possibilidade de...? Ah. "Calúnias" Dizem eles. Eu não quero saber da vossa falsidade. Vocês não me dizem nada, não são nada para mim.
Deixei o assunto pendente e continuei a caminhar.
Enquanto caminho, vejo um indivíduo a andar ao meu lado, não muito longe.
Espiava-o pelo canto do olho. Vejo a tirar uma coisa da sua mala enorme, parei. Fingi que estava a apertar os sapatos, aquilo despertou me a atenção.
Ele tira cuidadosamente, certificando-se que ninguém o olha.
Com muito cuidado tira Um baixo. Um baixo azul com braço preto e as linhas dobradas a ouro. Não. Este episódio da minha vida não podia ser real. Aquele baixo, era o baixo que eu imaginava dias a fio. O instrumento musical que um dia, ilusivamente me iria levar para o caminho do estrelato. Ele pega no baixo, examina-o, e vira se para mim, reparou que eu estava a olhar para ele. Eu atrapalhado, continuei a atar os sapatos que tinha desatado há 10 minutos atrás. Ouço a chamar o meu nome, a e atirar me o baixo para as mãos.
Aquela pancada pesada, do baixo no meu estômago, sem forças, caí no chão.
Sinto uma grande luz apontada a mim, com a intensidade dela não pude ver de onde vinha.
Levanto-me tonto com a pancada, com uma mão na cabeça e com a outra a agarrar o baixo.
Ergui-me.
Fiquei branco quando percebi o que estava a minha frente.
Estava numa plataforma, no meio da rua. Sem carros a passarem, nada.
Apenas um concentrado de todas as pessoas de Lisboa inteira á minha frente, parecendo que estão a espera de algo que vai acontecer. Eu estava espantado. Congelado. Sem saber o que fazer. Em pânico, procurei á volta, a ver se conhecia alguém, alguém a quem eu me pudesse inclinar minimamente. Ninguém. Senti me sozinho num mundo ainda desconhecido por mim. Olho para o baixo, e com uma ultima esperança ponho me a tocar. Notas saídas dum sítio que não era explorado por mim há muito tempo, a alma. Na minha cabeça consigo imaginar tudo a acompanhar-me, guitarra, bateria, voz. Todos em sintonia a fazerem a arte mais valiosa deste planeta, a música. De repente, o público muda sem eu sequer me aperceber. Em vez do habitual headbang, as pessoas começaram a dançar no ritmo duma música frenética, contagiosa, ritmada, quase que pura batida selvagem.
O meu corpo naquele momento não pertencia a mim, mas sim, ao inferno em si.
Dançava, estonteante, soltava o meu corpo em ondas e pulsações.
Mas espera, o efeito está quase a passar!
Sinto-me tonto, não pode, não pode estar a passar.
Sinto me fraco, vulnerável.
Tenho que sair dali, daquele mar de pessoas que me rodeava.
Cambaleei até uma parede, suja, que não pertencia a aquela parte da cidade.
Onde estou? Tinha-me perdido nestas quatro paredes.
Tinha que voltar ao meu "eu". À minha pessoa.
Uma palavras inspiradoras, uma frase qualquer coisa.
"His palms are sweaty
Knees weak
Arms are heavy
There´s vomit on his sweater already
Mom´s spaggeti
He´s nervous
But on the surface he looks
Calm and ready
To drop bombs
(...)
He opens his mouth
but the words
Won´t come out
He´s chocking now
Everybody´s joking now
The clock runed out
TIme´s up Over Blau!
Era disso que precisava para voltar ao topo.
E chegar seguro a casa.
O sítio que pode ser em qualquer lugar.
1 comentário:
Puto o texto ta brutal e curti bue a referencia a Lose Yourself do Eminem. Keep up with the good job
Jinx a.k.a. Garrett
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